Ele chegou sem intenção de ficar, mas ficou

14:30


Era verão e, assim como todos os anos, eu e a minha família viajávamos para a casa da fazenda. Era um lugar distante, mas muito aconchegante. Tinha um chalé, ele era meu, meus livros estavam lá, meu sofá de leitura e minha escrivaninha também. Meu pai me dera alguns anos atrás quando percebeu que eu passara a maior parte do verão dentro dele escutando músicas e escrevendo. Os meus verões, até onde me lembro, eram sempre assim. E eu amava aquele lugar. Contava os dias para que o verão chegasse e eu pudesse ir para o meu "lar". A nossa casa era uma daquelas típicas de filme americano que tem um lago logo à frente. Você consegue imaginar a perfeição? Eu te garanto que é ainda melhor.

Meus pais sempre faziam churrasco na beira do lago. Eu costumava ficar no chalé, mas, ao sair lá de dentro, tinha a leve impressão que meu lugar era no mundo e não trancafiada num quartinho aconchegante. O churrasco havia começado, eu saí depois do café da manhã sem saber que tínhamos visita. Coloquei meu vestido estampado de flores do campo e deixei meus cachos soltos para que o vento pudesse bater e levá-los consigo. Cheguei meio tímida. Para mim sempre foi difícil lidar com pessoas estranhas das quais eu nunca havia feito nenhum contado. Eles eram legais, estavam passando as férias de verão pela primeira vez pelas redondezas. Meu pai, sempre receptivo, havia convidado a família nova para participar do churrasco. "Oba", pensei sarcasticamente. 

Minha irmã mais nova estava na beira do lago, então fui fazer companhia a ela, apesar dela já está acompanhada pela filha do casal novo. Fiquei observando as duas brincando. Por um momento eu parei meu pensamento e congelei o meu olhar no céu, nem percebi que alguém havia chegado e parado ao meu lado. Então ele disse "olá" e, para o meu descontentamento, a visão do céu havia se dissipado pelo som da voz grave dele. Olhei rapidamente para a pessoa que havia me tirado do êxtase. Ele sorria, mas eu continuava séria, carrancuda, chateada. Disse olá por pura educação, então sai e fui e em direção ao chalé.

Ele me seguiu como quem persegue uma presa. Olhei para trás e perguntei para onde ele estava indo, ele disse num tom de voz suave: "eu só quero conversar". Não respondeu a minha pergunta e, mais uma vez, eu a fiz, e ele respondeu que a intenção dele não era chatear ninguém, mas que havia gostado de “achar” alguém para conversar. Então ele continuou me seguindo e falando pelos cotovelos. Falou que não queria ter vindo para cá, que havia deixado a "galera" lá e que os pais dele não queriam deixá-lo sozinho. "Fui obrigado a vir", ele falou, agora com o rosto carrancudo.

"Eu amo esse lugar", soltei, com um ar de quem havia recitado um poema de amor profundo. Porque era exatamente isso que aquele lugar era: um poema. Cada detalhe dele revelava algo, e eu amava decifrar cada cantinho de lá. Ele me fitou com um olhar baixinho e continuou me observando falar com intensidade sobre como aquele lugar era especial. Até que notei que a tagarela agora era eu e parei, no susto, de falar. Ele sorriu e me pediu para mostrar o encanto e as belezas que o lago escondia. Então fomos. Ele me falou dos seus gostos musicais que, por sinal, eram bem diferentes dos meus; me apresentou algumas músicas e autores que ele lia. Depois ficamos em silencio, observando o lago e escutando o som do vento. Tudo era lindo. O cenário parecia a pintura de Klimt em seu melhor momento, aquele êxtase de perfeição. Porque era exatamente do que se tratava: perfeição. Alguém havia criado aquilo e não poderia ter sido um mero pintor. Eu sei que foi Deus.

Ficamos parados no lago por um bom período de tempo, contemplando as árvores e os pássaros. Então ele se aproximou um pouco mais de mim ao ponto de ficarmos quase colados um ao lado do outro. Fiquei gélida, não sabia porque, mas aquele menino esquisito de gostos inusitados havia despertado algo em mim, e era algo que eu nunca havia permitido sentir. E ele foi se aproximando mais – como se isso fosse possível -, encostou a mão dele na minha sem tirar os olhos do cenário. Nossas respirações começaram a ficar mais intensas e sincronizadas. Nervosismo. Euforia. Mansidão. Silêncio. Barulho. Tudo ao mesmo tempo. Éramos incapazes de quebrar o momento que criaram para nós. Meus cabelos começaram a voar com o vento forte, nesse momento nos olhamos e, por coincidência, estávamos sorrindo. Ele veio com sua mão sutil ao encontro dos meus cabelos que cobriam o meu rosto e os retirou de lá. Nossos olhos, enfim, se encontraram. Congelados. Quase mortos de tão imóveis que eram, mas cheios de vida.

Retirei meus olhos da direção dele e, então, me levantei, ele fez o mesmo. Havia música em algum lugar, dava para escutar de lá. Ele estendeu a mão como quem convida alguém para dançar, fiz não com a cabeça por não saber dançar, mas ele disse que me conduziria. Cedi. Era calmo, profundo, sutil, simples. “Como alguém pode causar tanto alvoroço, assim, em uma pessoa em tão pouco tempo?”, me perguntei, mas não obtive respostas. Só me deixei ser conduzida e, por um momento, eu só queria ficar nos braços dele. Então lembrei-me da música de Tulipa Ruiz, que diz: “só sei dançar com você, isso é o que o amor faz...”. Não era amor, eu sei, mas eu queria que fosse. O rosto dele estava colado no meu, dançávamos como se já fizéssemos isso há anos. Nos conduzimos. A música parou, mas o nosso momento, não. Ele me olhou nos olhos, sorrindo, tirou uma de suas mãos da minha cintura e a colocou no meu rosto, alisando suavemente, sem proferir palavra alguma, com a respiração ofegante, coração disparado... O silêncio foi quebrado. Ele falou algo, mas não deu tempo de escutar, quando vi, meus lábios já tocavam o dele. Impulsivamente. Delicadamente. Freneticamente. E, sem que esperássemos, já fazíamos parte daquele cenário onde o pintor havia esquecido de pintar a melhor parte: nós.



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