Ele tem cheiro de café

14:00


São 5 da manhã e eu começo a me revirar na cama, inquieta, sem paciência, despreparada para o dia que me espera lá fora. Fico deitada por um bom tempo tentado arrumar uma desculpa para não levantar, mas nada é convincente. Então me levanto e vou tomar um banho gelado para acordar, definitivamente, para a vida. Me visto e me direciono à cozinha, vem um cheiro bom de lá, cheiro de café fresquinho com torradas e ovo frito. Sou recebida com um "Bom dia" mais doce e gentil que alguém poderia dar a essa hora da manhã. "Como sou sortuda", pensei, então ele sorriu e me deu um beijo na testa. Ele trabalhava um pouco mais tarde do que eu, mas fazia questão de levantar antes para preparar o café, só ele sabia fazer o café com cheiro de amor.

Tomamos café, conversamos sobre a vida, sobre os planos, o futuro... E eu percebi que, ao falar do futuro, ele fazia questão de usar plurais, porque foi isso que nos tornamos "nós indesatáveis". E ele sorria todas as vezes que falava das viagens que desejaria fazer e que "nós" iríamos amar conhecer tal lugar. Ele sempre foi essa pessoa que amava fazer planos. Metódico, gostava de tudo planejado, mesmo que as coisas saíssem dos trilhos de vez em quando. Ele sorria, e o café da manhã se tornava a parte mais bonita do meu dia. Era bom saber que eu tinha um motivo para voltar para casa todos os dias.

Ele tem cheiro de café, aqueles que dá uma sensação de coisas boas, que te deixa esperto o dia inteiro e chega invadindo sem que você perceba. Foi exatamente assim que ele chegou, mansinho, calmo e sem que eu percebesse. Roubou meus dias e minhas horas. Enfeitou minha vida com cores fortes e disse que era para combinar com tudo de bom que estava para acontecer. Acreditei. Deixei ele entrar e ficar. Ele ficou. Eu gostei de ter alguém para dividir meus dias. Está tudo colorido aqui dentro de mim, algo nasceu. Acho que foi o amor. Nunca soube, ao certo, como seria amar. Mas aí ele chegou com um cheiro simples e peculiar e me fez entender que amar era isso mesmo: ter alguém que te transborde, que te combine, que te cuide e te faça café.

Estou no carro agora, voltando do trabalho e escutando Prelude In E-Minor de Chopin, sorrindo, sabendo que, quando eu chegar, alguém vai estar me esperando de braços abertos, sorrindo. Feliz por me ver, por me ter, por me querer. E eu aqui, ansiosa para morar nos abraços dele por mais uma noite, comermos o yakissoba que estou levando e tomar suco de morango com limão. Ele me ensinou todas essas coisas, mas a mais importante foi que, não importa o quão rico você seja, se você não tiver a quem amar, você será o mais pobre dos homens.

Ele tem mesmo cheiro de café, daqueles que você não se contenta só com uma xícara, você sempre quer mais, e ele sempre tem mais a oferecer. Cheguei em casa, ele abriu a porta. Sorriu. Me abraçou. Me levou para o sofá e me contou como foi o dia. Olhei nos olhos dele, apaixonada, como se fosse a primeira vez. Sorri. Encostei minha cabeça no ombro dele e pensei: "como sou sortuda, meu Deus! Como sou sortuda!"  Ele tem cheiro de café, daqueles que te viciam. Eu sou viciada nele.


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